A Gramática de Hermes permite-nos reconhecer que é indispensável algum talento de acronia no perfil de um Povo, para que este, na sua cultura e nos dias de hoje, eleve um sentimento a símbolo da Pátria. Daí que muitos Portugueses não concordem com a exaltação da Saudade, exaltação que, segundo eles, dificulta ou contraria o nosso “aggiornamento”, a nossa “modernização”, a nossa integração na Europa. Esquecem-se, porém, esses Sergistas que o excesso da fria luz da razão acaba por dar vazão ao escaldante abuso da vontade, à violência; em diferentes escalas, isto ficou bem claro na história europeia do século XX, como também não deixou de ficar claro nos escritos polémicos daquele a quem Cortesão epitetou “um profeta à bordoada.” Para haver acordo, há-de haver coração.
Entre nós, a «filosofia em Portugal» significa uma só coisa: eliminar, por via universitária, a filosofia portuguesa como imagem da Pátria. O que importa, partindo da problemática concreta da filosofia portuguesa, é reconhecer lugar ao carácter universal do que é próprio das coisas, dos povos e das culturas, tal como, ao dizermos vinho do Porto, não perdemos, certamente, o que faz dele, como de todos os outros, um vinho. Todavia, perante a silhueta de pretensão universalista, convém não esquecer que saborear um vinho implica desde logo distingui-lo naquilo que o torna único, ou, simplesmente, naquilo que lhe é próprio em termos de sabor e sentido. Deste modo, provar o vinho do Porto, reconhecendo-lhe a forma substancial pela qual se tira partido de toda a sua singularidade, é também reconhecer, por via individual, o Génio que espiritualmente assiste e perpetua o sentido situado e concreto da filosofia portuguesa. Mais: não só reconhecê-lo, mas consagrá-lo, como quem espera a alteração substancial que Cristo, mediante a sua presença real, conferiu às espécies do pão e do vinho na Eucaristia.
Einstein terá dito «Só quero saber como Deus pensa». Ousada, ou não, mística nos meandros, a sentença deixa-nos porém na dúvida se o célebre autor da teoria da relatividade a pronunciou numa perspectiva estritamente científica, se filosófica, se nas duas vias mais ou menos simultâneas. Lançada a frase, teve no entanto o cientista cuidado de não especular muito sobre os atributos do Criador que - segundo outra afirmação de Einstein - «não joga aos dados». Os académicos quase sempre desvalorizam estas afirmações e outros pormenores, quer seja da vida deste homem ou de outros, como, por exemplo, o da paixão de Newton pela exegese da numerologia bíblica.
A propósito de um artigo assinado por Pinharanda Gomes sobre a "Nova Águia", publicado n' "O Diabo", os da Leonardo dirigiram uma Carta Aberta ao pensador que foi dada à estampa no passado dia 28 naquele jornal, sob o título "Nova Águia prepara a traição dos intelectuais".
Com a recente publicação da revista «Nova Águia», temos mais uma vez a confirmação de como a organização universitária continua a recorrer a todos os meios que pode para hostilizar a filosofia portuguesa. Primeiro, começando por confundir e anular a noção principial de Pátria num vago e abstracto conceito de implicações estratégico-políticas: a «Lusofonia». Depois, perante o ídolo do nada, dissolver o que porventura resta da existência concreta de Portugal numa «União Lusófona», cuja cultura, vogando em águas universitárias, jamais compreenderá, não obstante a sua retórica do respeito pelas identidades nacionais, a promoção da paz e dos direitos humanos, a razão de ser da existência de filosofias nacionais. E assim sendo, acabando na mais pura e cabal negação da filosofia portuguesa, como já de seguida mostraremos de forma explícita e inequívoca.
Na segunda excursão na Árvore das Ideias, aborda-se na coluna da Sentimentologia, a eudaimona, dos Gregos, ou felicitas, dos Latinos, sentimento dos entes que se sabem vivos e em harmonia. A eudaimona é uma causa final. É a felicitas para onde caminha toda a Criação. Na Gramática de Hermes, na outra coluna, estabelecem-se as diferenças entre “Nome” e “substantivo”, dois termos vulgarmente dados como sinónimos. A didáctica gramatical usa-os indistintamente para classificar certas palavras numa mesma classe morfológica. Na Gramática de Hermes, porém, esses dois termos referem classes diferentes de um mesmo género, o género designativo.