Uma vez mais, publicamos com a devida vénia um texto de Gonçalo Magalhães Collaço, inserido no seu blog "Albergue Português".
Este texto aparece em boa oportunidade, pois há já algum tempo que pretendíamos, na "Leonardo", iniciar uma série de artigos sobre os temas do livro de Orlando Vitorino "Exaltação da Filosofia Derrotada"; ora a liberdade é, sem dúvida, um conceito axial nessa obra. Aliás, o princípio da liberdade e, a partir dele, a dedução doutrinária e categorial de um "sistema de libertação" vem a ocupar um lugar tão central no pensamento de Orlando e na derradeira fase da sua intervenção cultural e cívica que, para muitos, como António Cândido Franco, nada custou chegar ao desplante de resumir a contribuição de Orlando para a filosofia portuguesa como "defesa intolerante do neo-liberalismo económico" (1).
Mas, entenda-se, tal classificação, vinda de Franco, é a expectável contrapartida à visão que o mesmo tem daquele que considera ser o fundador e certificador da qualidade ideológica da Filosofia Portuguesa, Sampaio Bruno, que classifica, obviamente, como um "livre-pensador socialista e anti-clerical"(2).
Deixemos, porém, aos universitários e intelectuais do regime as candentes preocupações ideológicas e atentemos na "Exaltação da Filosofia Derrotada", que é um livro inquietante! Inquieta-nos o que deixa dito, porque traz, sem rodeios, teses da Filosofia Portuguesa ao plano das propostas concretas para o quadro constitucional, o sistema educativo e o jogo económico, deixando a vindouros discípulos ou companheiros o encargo de as actualizar, completar ou corrigir, segundo o que vai acontecendo no tempo, pois esse é o irremediável encargo de quem assim se envolve e a exigência normal desse tipo de teses e propostas; inquieta-nos, porque a "Exaltação", assim direccionada e envolvida com o quotidiano e sujeita aos limites impostos pelo seu inerente pragmatismo, não faz juz ao que, em termos filosóficos puros, um puro filósofo como Orlando Vitorino teria a dizer da Metafísica, da Lógica, da Teodiceia da Filosofia Derrotada.
Dessa perspectiva, a "Exaltação" sabe-nos a pouco, como se um terceiro volume tivesse ficado por escrever (3); e a ansiosa espera dos inquietos, que acabou frustrada pelo bater da hora do merecido descanso do filósofo, só pode agora ser esperança de que outros venham a retomar o seu pensamento, na tentativa de o levar novamente às últimas consequências.
Magalhães Collaço, durante anos um ouvinte e interlocutor de Orlando Vitorino, não fica, nem podia ficar, indiferente ao tema da liberdade. Leu, de forma discordante, a frase, que cita, de Miguel Bruno Duarte, e desenvolve a partir daí as suas razões, que considera aduzidas de uma tradição de "eminentes portugueses", "nossos superiores", tradição que afirma que a liberdade "é sempre liberdade do espírito".
Na sequência deste texto de Magalhães Collaço, e por ter mais coisas a dizer sobre a liberdade e a frase que lhe foi citada, Miguel Bruno Duarte escreveu um artigo, que aqui publicaremos de seguida, dando continuidade, cremos, ao propósito acima enunciado (e que talvez possa ser resumido assim): exaltar a Exaltação!
João Seabra Botelho
(1) Actas dos Colóquios "Sob o Signo do 7", pág. 113.
(2) Actas dos Colóquios "Sob o Signo do 7", pág. 112.
(3) Francisco Moraes Sarmento fez-me saber, já depois de ter escrito esta introdução, que Orlando Vitorino estava a escrever um terceiro volume, intitulado "As teses da Filosofia Portuguesa". Só podemos desejar que o texto possa vir a ser publicado por quem é responsável pelo espólio do filósofo, e desde já a "Leonardo" se disponibiliza para colaborar, se tal for útil, nesse propósito.
É já sabido que o Al-Gharb, o ocidente do Andaluz, deu o que nós, hoje, Portugueses, chamamos o Algarve. Trata-se, pois, de um ponto geográfico que, vertendo para o mar Verde, diríamos ser o contraponto do Andaluz oriental, cujas águas correm para o mar Azul.
Outrora descrito como o paraíso, ou, em termos claramente orientais, como o oásis de que então falavam os poetas andaluzes em suas epístolas para Bagdade e Damasco, o Algarve continua, mau grado a sua descaracterização urbanística, a reflectir o Céu cujo sol nos afaga, aquece e ilumina o corpo e a alma em terra dos verdes e das águas.
Mas não só de luminosidade física está o Algarve radiante, pois, qual narrativa entretecida de alegorias, metáforas e símbolos, permanece latente toda uma imaginação erótica e amorosa a pairar em clima de festividade e tradição no subconsciente poético do Garbe. Dir-se-ia mesmo, nessa visão ou universo de "As Mil e uma Noites", estar prestes a irradiar, qual reminiscência de um tempo vindouro, o calor e a luz de uma sabedoria pronta a unir o mais alado platonismo com o mais sensual e concreto aristotelismo. Enfim, tudo combinando, para melhor, não só o património ariano e semita da virtude feminina, de que a "moura encantada", no Algarve, permanece a expressão de uma singular e profunda tradição popular, como ainda tornando menos árido e dogmático o plano das subtilezas quodlibéticas entre judeus, muçulmanos e cristãos.
De facto, neste universo, não há como duvidar do carácter alegórico e imagístico da mulher ideal. Aliás, só assim se explica a instância analógica que, do visível ao invisível, podemos aferir e conceber entre a sensualidade do amor carnal e o tema do beijo quebrando o encanto da Bela Adormecida. Por outras palavras, dar-mo-nos ao tema de como a matéria-prima, em si mesma insubstancial e insubstante, transita à existência por virtude do princípio criador e substancial representado na forma e no acto.
Ora, que melhor forma senão a lendária para nos darmos conta de que o encanto é, de algum modo, a prisão da luz na sombra? E como não, já agora, pormos ao dispor do leitor as lendas de Silves, tais como, num passado relativamente recente, registadas foram por Garcia Domingues no seu Guia Turístico da Cidade e do Concelho?
Filosofar é palavra, acto e razão. E mesmo no mais íntimo silêncio ou na contemplação da visão, postos numa estranha e enigmática encruzilhada e ignorantes do que se determina em nós ou por nós, procuramos na telúrica intuição, a voz, que não raras vezes só se escuta na quietude silente da alma, surge já como acto racional.
Perante o problema, segredo ou mistério, a aporia emana do que se ignora. Determinação para a existência, anuncia o mundo a fazer.
O texto que se segue é uma exegese sobre "A Teoria do Ser e da Verdade", que nos lembra a razão crucial de José Marinho. E de como pensar é afinal, desde o princípio ao fim, um instante infinito, universal e absoluto, aspectos que para além da "opulenta multiplicidade" permanecem como presença da eternidade do mundo.
Essa quietude que a tudo assiste e sem a qual nada existe ou pode existir. Essa imobilidade com a qual compaginamos o corpo, a alma e o espírito, para nos iniciarmos na visão ou teoria. No seio dessa liberdade revela-se a noção. E a noção terá sempre um sentido, ou se quisermos, um acordo cósmico. Assim se valoriza o pensamento desde a intuição primordial até ao que penetra na existência. Para além do ser, ou o ser da verdade, importa a verdade e a verdade do ser.
Álvaro Ribeiro, que nunca fora salazarista, pudera, porém, na qualidade de publicista dado às vicissitudes da cultura popular, escrever, ainda que modestamente, no orgão da Campanha Nacional de Adultos, à época integrado no Plano de Educação Popular.
Aliás, sob o estatuto de modesto funcionário da Junta Central das Casas do Povo, Álvaro Ribeiro fora também, entre 1946 e 1971, o editor do respectivo Mensário, que, como se sabe, constituía um notável repositório da nossa cultura popular. Tal condição, verdade se diga, permitiu-lhe ultrapassar a miséria muda e cadavérica a que, durante os anos de provação, o condenara a sociedade organizada.
Se não fosse, portanto, a compaixão do Dr. António Júlio de Castro Fernandes - na altura um político do corporativismo, a quem Álvaro, com paciência e gratidão, pelo «direito económico de cidadania concedido», explicara o hegelismo -, muito provavelmente a sua obra não teria visto a luz do dia. E não só ela como o texto que se segue, inserto no n.º 4 de A Campanha, de 15 de Dezembro de 1953.
Qual Guilherme Tell, Orlando pensava e escrevia na certeira flexão das palavras para o alvo. Apontava, e acertava; lançava as suas flechas para o verdadeiro, o concêntrico ponto ordenador dos muitos círculos de opinião em que tantos se perdem, frechando muito mais mas acertando muito menos.
Sobre Agostinho, o que não se disse já? Nos mais diversos formatos, do artigo de jornal à mais competente e compacta tese universitária, a sua obra e a sua personalidade foram, e estão sendo, esmiuçadas ao pormenor.
Mas onde está a síntese que vá directamente ao centro do alvo, escrita por quem lhe saiba acertar? Onde está o juízo que não esquecemos, porque diz o essencial?
"Dá-nos Agostinho da Silva uma imagem de si que é a imagem do filho pródigo antes de regressar a casa de seus pais. A casa que abandonou é a escola de Leonardo Coimbra, a Renascença Portuguesa, a mitologia de Pascoaes, a filosofia portuguesa de Álvaro Ribeiro e José Marinho. Sempre a casa lhe esteve e está aberta, com o lume aceso e o pão na mesa. Amuos de Menino – ele é que é o Menino dos “Impérios” – prendem-no lá fora ao frio de um cientismo que deu o que não tinha a dar, à secura de um racionalismo sergista de que já se não vê o que ficou e coisas semelhantes que são o que mais há por esse mundo das universidades, das academias, das instituições, das teocracias sem Deus onde Agostinho parece dizer que gosta de fazer figura."
Em mais meia dúzia de parágrafos, semelhantes a este, eis-nos perante Agostinho da Silva... Mas visto por um seu par na via da liberdade - o que faz toda a diferença!
A modos que em síntese de um tema já aqui diversas vezes abordado, publicamos um texto fundamentado e atento sobre o ensino universitário Português, e o ensino da Filosofia em particular, nos três primeiros lustros do século XX. Sobre o último, ainda próximo, estará por se fazer muita da sua peculiar história, como o total desmantelamento da Faculdade de Letras do Marcelismo, em 1974, para logo reabrir no ano lectivo seguinte como Faculdade de Letras do Cunhalismo. Na sua justa proporção, também essa história será elucidativa do que hoje vivemos.
O que este texto propõe, embora tenha uma ordenação sequencial de personalidades, ideias e acontecimentos, não é a colecção selecta e erudita, onde se encontrem, como quem consulta a lista telefónica da História, os nomes ou os contactos com os quais possamos reconstituir o passado. Ver apenas esse elenco factual e informativo, podendo ser útil, não sugere e menos entusiasma. Este texto poderá antes ser encarado com mais proveito - contrariando os hábitos de leitura de sebentas filosóficas, que tudo apostam nesse tipo de elenco - como uma narrativa que, à imagem dos bons romances policiais, vai tecendo a trama dos acontecimentos, deixando pistas e sinais, num convite ao leitor para descobrir quem, ainda desconhecido ou ausente em parte incerta, determinou, afinal, o rumo dosacontecimentos.
Um pássaro de Minerva, como gaivota na areia da praia, deixa as suas marcas aqui e ali, na noite em que ora voa, ora pousa, vezes sem conta pousa e voa! Na Universidade, na Cidade, em espaços e tempos idos, mas lembrados, as inteligências e os espíritos foram exprimindo as ideias e construindo os feitos ou factos aqui narrados. Mas o pássaro, está a vê-lo, leitor? Qual a doutrina, ou doutrinas, que o voltejar do seu voo vai compondo? Poderemos nesse voo antever as verdadeiras formas do filosofar que sustentou aquele tempo e aqueles homens?
Continuando a publicação de textos de Orlando Vitorino, entendemos prestar um serviço, não propriamente ao Autor, que não consideramos carente de qualquer benesse que nos fosse possível dispensar-lhe, mas antes a todos os que, como nós, sentem a profunda vacuidade e desorientação da nossa Política, da nossa Civilidade, do nosso Patriotismo.
É que Orlando Vitorino faz-nos falta, pois foi, num certo sentido, figura ímpar da sua geração, pela decisão que tomou de ser o que foi, fazendo o que fez - não se deleitar no que poderia ter sido uma vida recatada de intelectual, de escritor, de dramaturgo e filósofo, mas antes envolvendo-se directa e pessoalmente, de peito aberto e fronte destapada, em diversas iniciativas e movimentos actuantes e interventivos na ágora cultural e política. Assim, deu-se ao trabalho áspero e cansativo de questionar e interrogar os temas mais exigentes da Filosofia, não para neles encontrar aceitável proveito próprio, seja cultivando a gnose individual ou a iniciação por invisíveis caminhos sóficos, seja alternativamente produzindo erudita e documentada Opera Magna, a jeito de candidatar-se aos doutoramentos "honoris causa", o que, como outros, também poderia ter feito, mas antes para deles ir deduzindo os teoremas, concebendo as categorias e enunciando as teses que trazia até ao palco da vida real dos seus concidadãos!
Essa tarefa, de indiscutível generosidade e abnegação, mas sempre assumida em liberdade e alegria, essa tarefa longa de uma vida, culminou numa intromissão destemida e generosa na política activa, com a sua candidatura àPresidência da República.
O simples facto, que o próprio Orlando relata no diário dessa candidatura, que iremos a seu tempo publicar, de não ter defraudado o desafio dos que se confessavam seus discípulos e que, em "simples" conversa de tertúlia, tão leve quanto séria, tão grave quanto ocasional, lhe perguntaram se não poderia fazer-se alguma coisa pela Pátria, aceitando ali mesmo o encargo de dar o exemplo - a mais nobre atitude de qualquer mestre... - diz quase tudo da sua invulgar disponibilidade para "agir para os melhores fins". Em suma, Orlando Vitorino viveu a filosofia que pensou, e pensou o que viveu filosoficamente, honrando os seus mestres e projectando no tempo vertical a sua própria natureza e espírito, que nos apraz reconhecer, e delas beneficiar, e partilhar, até onde o Espírito o consinta.