A Leonardo, revista de filosofia portuguesa, sofreu um ataque informático que obrigou a algumas alterações na estrutura da publicação. Neste momento, a Direcção está a recuperar a informação no sentido de repor, tanto quanto possivel, o património poético e filosófico.
A Esnoga Portuguesa de Amsterdão
Written by João Seabra Botelho   


Esnoga Portuguesa de Amsterdão


A imponente sinagoga construída pelos "Marranos", os judeus sefarditas Portugueses e Espanhóis que imigraram para Amsterdão, é hoje um dos motivos de curiosidade dos que visitam a animada, pitoresca, lendária e cosmopolita cidade dos canais e da "zona vermelha"...

Com base no texto de folhetos distribuidos aos turistas Portugueses, e com a devida vénia aos seus autores, acrescidos de mais algumas notas que considerámos de interesse para completar o tema, damos aqui notícia deste elo com a nossa História e a nossa cultura, já que...

"Os Judeus portugueses desempenharam um papel significativo no desenvolvimento cultural e económico da República dos Países Baixos. Além disso, desfrutavam de uma liberdade de culto, de vivência e de expressão quase única na história judaica europeia posterior ao século XV e anterior ao século XIX. A colónia luso-neerlandesa produziu rabinos, eruditos, filósofos, artistas, banqueiros, bem como fundadores e directores das mais importantes companhias de comércio internacional."

(continua...) 

 
Duas cartas a Marinho, ano de 44
Written by Álvaro Ribeiro   

 Revista Litoral

Lisboa, 19/III/944, dia de S. José


Meu bom Amigo:

A partir de amanhã terei trabalho no Grémio depois das 17 horas, durante alguns meses. É possível que não possa aparecer no café justamente nos dias em que V. poderá lá ir.

Peço-lhe, pois, o favor de resolver com o Sant'Ana o problema, pendente, das nossas reuniões para a Antologia. Em três ou cinco sessões poderá o trabalho ficar concluído.

 

(continua...)

 
Fala-se hoje de Escola Formal (IV) Carta ao Infinito
Written by Luis Furtado   

NOTA: A publicação do artigo de Jorge Filgueiras - mais um elemento da "Escola Formal" de que temos falado - é agora completada com uma carta que Luís Furtado nos pediu que publicássemos, carta que cremos dispensar qualquer introdução.



carta

Carta para o Infinito

 
Recordo em ti, Jorge, o humor do convívio, a sensibilidade social apurada e a sempre esclarecida cultura. Mas também avaliei e admirei as tuas qualidades extraordinárias, sofridas e caladas em solidão própria.

 Era com perseverança e até, muitas vezes, com fadiga que engalanavas de bons ventos a nau da tua vida.

(continua....) 

 
"Udjat" e a viagem da alma na epopeia dos mares
Written by Jorge Filgueiras   


Jorge Filgueiras era um íntimo amigo e frequentador da casa de Álvaro Ribeiro, que foi apresentado pessoalmente a Luis Furtado por um amigo comum, pouco tempo depois de Furtado ter iniciado o seu convívio filosófico na tertúlia do Café Colonial.

 

Filgueiras, além de um excelente conviva, que trazia sempre à conversa o brilho de uma cultura luminosa e franca, era um homem de profunda convicção católica, um homem bondoso e de excelente indole, que tinha por hábito coleccionar, imagine-se, opas de padres.

 

opaDispunha de uma volumosa biblioteca, dalmáticaonde pontificava uma imponente e valiosa “História da Igreja”. Jorge sentava-se na sua secretária de trabalho, encarava aquelas opas que o rodeavam como se armaduras fossem de soldados de Cristo de outras eras, e sentia-se testemunha e participante do esforço evangelizante da Igreja Católica para sacralizar o inerte mundo satânico, abençoar a fertilidade da natureza, redimir e ressuscitar os humanos.

 

Jorge Filgueiras entregou a Luís Furtado o artigo que vamos publicar (escrito exactamente há 33 anos, em 14 de Fevereiro de 1977...) na intenção de o ver impresso na “Escola Formal”; e não chegou a pedir que lho devolvessem, assim que se constatou que fora interrompida a publicação da revista, pela mais infeliz das ocorrências – foi-lhe então diagnosticada uma doença fatal, que o vitimou alguns meses depois, com apenas cinquenta e dois anos.

 

Cumpre-se assim, aqui e agora, um dever que o destino permitiu que se constituisse, ao dar tenpo a Jorge Filgueiras para escrever este texto e, ainda, de o entregar à “Escola Formal”. E cumpre-se agora, e aqui, porque na “Leonardo”, a “Escola Formal” está viva.

 

 Lisboa, 14 de Fevereiro de 2010
A Direcção

 
Carta a Marinho, Natal de 1950
Written by Álvaro Ribeiro   

Torre dos Clérigos
24/XII/950


                                     Meu caro Marinho,




Desejo-lhe Boas Festas e Boas Férias.


Ao escrever-lhe para o Porto, não posso deixar de reavivar saudades por essa terra tão indiferente pelo destino dos seus filhos e tão ingrata para com os seus melhores servidores.


Há quinze anos que não vou ao Porto, mas não deixo de pensar, com amargura, no que essa cidade poderia e deveria ser, se fosse fiel às suas tradições de livre espiritualidade.

(continua...)





 
"Não dá!" ( II )
Written by Gastão Baptista   


                Segunda Parte 

( leia a primeira parte aqui )

Lá se foi o pobre Ser, por ali acimabeijo de judas
Compondo, dorido, a ladeira da invejoria.

Por entre um eco de berros, só uma sorria

A face do amor, da bondade e estima…

 

Terno olhar, suave pele em mãos pedintes,

Repouso de todo o cântico da maledicência.

Dum peito jorrava o leite da inocência,

No outro secava a calúnia dos ouvintes.

 

Ah! Mas a seu lado, outra também sorria…

(Mulher que se acenda, apaga-se o cenário

E só crepita a chama no louco temerário…)

Mas com esta não… era Maria.

 

Deixemos isto, vamos mas é ao ladeiro,

Lá bem no alto, onde o Ser é desejado...

Tudo aquilo vibra, só para o ver espetado

Numa forma cruzada, feita num madeiro…

 

Mas que é aquilo? Que vejo lá ao fundo?

Pêndulo de figueira, esperneia como louco!

Nem ritmo tem, dizer inquieto é pouco…

Parece ou não, o aceno final ao mundo?!!!

 

Pragueja o homem, ele está mais que irado…

Numa guerra de surpresa, inveja e compaixão,

Angústia de pendurado - ou será que tem razão?

Ali tão à vontade, e o Ser todo pregado.

 

Mas atenção ao que grita, e se não for o que parece?

«Ouçam seus animais, olhos da patética ignorância,

Viram moedas num beijo, acusado de ganância,

Nem beijo foi, segredei… uma súplica, uma prece,
 

Que me deixasse pregar, do outro lado das tábuas,

Ele na frente e eu atrás, cruzados nas mesmas cavilhas,

Sangrados nos mesmos pedaços, rasgados pelas virilhas,

Soltando as mesmas angústias, saindo das mesmas mágoas.

 

Foi segredo sim, da inveja de não ser a frente

Do dorso eleito e vergado, oh viajante iluminado,

Que vais ao Pai e regressas, assim me foi confiado,

Por ti… tão vergastado, e eu ausente…judas

 

E mais, aqui pendurado, baloiçado, sem perdão,

Por um segredo bendito pela humana confiança,

Origem do ser na mulher a justeza na balança,

Início de tanta balbúrdia, crueldade e confusão.

 

Porque este pendular, cansado, martelado no humano,

Será perpétuo, impotente, infiel e desgraçado…

Cairá sobre o gentio, de tanto querer equivocado...

Engana-se hoje e para sempre; e o sempre, será profano!

 

E se não houver redenção, só desejo ao deus dará,

Cada acto, cada erro, cada beijo, cada engano,

Cada prego, cada chaga, cada espinho em mais um ano,

Por mais que queira saber, o saber não saberá.

Cascais, 27 de Dezembro de 2009
Gastão Baptista

 
Fala-se hoje de "Escola Formal"? ( III )
Written by Luis Furtado   

Escola Formal primeiro numeroO projecto da revista "Escola Formal" aconteceu pouco depois de ter sido aprovada a Constituição da Republica Portuguesa que, no seu preâmbulo, declarava Portugal uma sociedade "a caminho do socialismo".

O debate ideológico, à época, ainda não se esgotara no desânimo que veio a substituir a euforia das ingénuas expectativas reivindicativas da segunda metade da década de setenta.  Mas também, atente-se, ainda não caíra o Muro de Berlim nem o Marxismo perdera totalmente o seu prestígio revolucionário e messiânico.

Era, portanto, nesse contexto histórico de acérrimo debate ideológico e luta pelo poder político, que se tinha de colocar a questão: como deveria, afinal, pronunciar-se a "filosofia portuguesa", agora corporizada na "Escola Formal"?

1 - Deveria assumir uma estratégia de combate e enfentar as ideologias que, à época, animavam as forças políticas dominadoras do processo revolucionário, refutando o marxismo e o materialismo dialéctico, enunciando doutrinas alternativas?

2 - Deveria manter-se num patamar afastado do quotidiano imediato, mas tentando alargar a sua influência à Academia e às novas gerações, num discurso formalmente mais próximo da mentalidade académica?

3 - Deveria apenas continuar o seu exercício filosófico, mantendo a tertúlia filosófica que sempre estivera distante de instituições e poderes constituídos?

Será lícito, hoje, supôr, ou concluir, que Álvaro Ribeiro tomava por válida apenas a terceira alternativa? Pretendia o filósofo alhear-se do reboliço ideológico, para insistir num organum de teses filosóficas que, lançadas ao vento, por si mesmas continuariam a atrair e a agregar inteligências, escol disponível para a doutrinação política de um Portugal Renascente, que a seu tempo se revelaria?

Luis Furtado, no texto que se segue, dá-nos a sua perspectiva sobre estes temas. Percebe-se que, para as personalidades que se dispunham a colaborar na nova revista, teria sido possível concretizar qualquer das alternativas... Só uma delas, porém, se tornou real. Pela pena de Orlando Vitorino e Afonso Botelho, a "Escola Formal" firmou-se numa estratégia de combate. 

Hoje, os contornos do alinhamento visível dos factos já não se cingem apenas à revista em si-mesma, já que também outras fontes, entretanto, se foram revelando, assim como muitos outros acontecimentos em que os seus intervenientes participaram, nos anos que se seguiram, e tornaram mais claras as congruências da acção e do pensamento dessas personalidades; interrogar esse tempo e essa gente tem sempre o benefício de nos deixar conhecer melhor algo que é raro - o empenho e a acção de homens livres.
 
João Seabra Botelho

 
Deixar vir a ser
Written by Manuel Pereira Bernardes   



nave
DEIXAR VIR A SER



Na passagem da serenidade
Fazemos da vida um ritual.

Dentro do templo do destino
Iluminamos o espaço sagrado,
com cumplicidades inesgotáveis,
Meditamos sem pressa e com devoção.

Uma história sem contornos,
Uma pincelada simples,
Sem ilusão.

Deixar vir a ser
É renascer na esperança do belo,
Subtileza sem limites.

Uma pena voa devagar
No espaço de solidão.







RECOLHIMENTO
vento


Montanhas além,
Almas passam altas
Por entre os penhascos luzidios.

Pedras sobre pedras pisamos.

Longe,
O vento calmo
Espraia-se no horizonte distante.

Do outro lado do  poente
A lua espreita sem medo.

A calma paira na beleza e na solidão.

Assim, com este vento,
Se vai passando o tempo
Neste convento.



Poemas e desenhos de
Manuel Pereira Bernardes

"Deixar vir a ser" foi Impresso em 2004, edição do autor, com apresentação de Pedro Teixeira da Motta. 

 
Fala-se hoje de Escola Formal? (II) - A Ideia de Pátria
Written by Luis Furtado   

Batalha - Capelas Imperfeitas

INTRODUÇÃO

Depois de algumas reuniões em casa de Luís Furtado, os acontecimentos precipitam-se. Numa reunião já decisiva, em casa de Afonso Botelho, aparece um novo personagem, de seu nome Roque, "o homem da tipografia". Para financiar a revista avançam dois voluntários, que viriam depois a figurar como os futuros directores. 

Entenda-se que o facto de Álvaro Ribeiro ter inicialmente sugerido o nome de Luís Furtado para director não significava, naquelas circunstâncias,  que este se achasse definitivamente nomeado e a dirigir uma eficiente equipa editorial! Não; obviamente, o processo de publicação da revista era completamente semi-amador e informal, e tudo dependeria das pessoas presentes naquela reunião, da sua experiência nessas andanças, do que elas, efectivamente, quisessem, pudessem, ou viessem a fazer... E foi isso que, na prática, ditou que, naquele momento, os mais experientes, assertivos e financeiramente disponíveis tivessem avançado. No entanto, não foi por mero acaso que o próprio Orlando evitou assinar muitos dos textos que produziu para a revista; a questão fundamental, para ele, na "Escola Formal", era o que se íria dizer, não tanto quem o íria dizer... 

O tema dessa reunião, a última efectuada antes da saída do primeiro número da revista,  foi "A ideia de Pátria". Intervieram Álvaro Ribeiro, António Telmo, Afonso Botelho, Luís Furtado, entre outros; dessas intervenções resultou depois o "Diálogo sobre a Pátria", redigido por Orlando Vitorino, e que aparece publicado no quarto número . Luís Furtado, que se tinha comprometido a entregar um artigo sobre o tema, (e entregou...), nunca o viu ser publicado - já que o tema ficou tratado na forma do "Diálogo", uma tentativa de Orlando, um homem irresistivelmente atraído pelo teatro, para reconstituir, dramáticamente, o que tinha sido mais uma das inúmeras conversas da tertúlia, agora reunida já só sob a égide de Álvaro, embora a memória de Marinho pairasse ainda sobre todos ...

É esse artigo, inédito, de Luís Furtado, que agora, com muito gosto, damos a conhecer.

Lisboa, 28 de Janeiro de 2010
João Seabra Botelho

 
Carta a Marinho Março de 1950
Written by Álvaro Ribeiro   

http://www.leonardo.com.pt/revista1/images/leonardo/%E1lvaro%20ribeiro.jpg Lx., 22/III/1950

                Meu caro Marinho,

Tenho esperado por notícias suas. Tenho-o procurado nos cafés do bairro. Resolvi agora escrever-lhe.

Estamos no fim de março, e só talvez em abril será publicado o livro "Testemunhos", sobre o Leonardo Coimbra.

Espero, com receio, êsse acontecimento. Sobre nós, discípulos, recairá a atenção, a comparação e um juízo que nos envergonhará e que talvez anule o resultado do nosso trabalho.


(continua...)

 
Fala-se hoje de "Escola Formal" ?
Written by João Seabra Botelho   


Escola FormalRetomamos aqui um tema recorrente para nós, os da "Leonardo", que é a "Escola Formal".

Desta vez, porém, fazêmo-lo num contexto sui generis.

De facto, no blog "Cadernos de Filosofia Extravagante" António Telmo fez publicar uma carta que lhe escreveu Álvaro Ribeiro, sobre a revista "Escola Formal".

Essa carta, e algumas leituras que dela se fizeram, levaram-nos a que decidissemos esboçar uma breve "história secreta da Escola Formal", que começa com o artigo que se segue, e outros que depois virão. Breve, mas que esperamos seja suficiente, para os fins que se entenderão com a leitura do artigo.

A Direcção

  

 
Carta a Marinho
Written by Álvaro Ribeiro   

Lisboa, 25 de Setembro de 1943

Meu bom amigo,

O auxílio mútuo, o incitamento mútuo, são indispensáveis à nossa grei filosófica; quanto a mim, agradeço reconhecidamente o que me prestem nesse sentido. Muito obrigado pelas suas palavras, e mais ainda pela intenção que as ditou.

O artigo que a "Aventura" publicou foi escrito há já um ano. Reli-o com agrado, embora me preocupe cada vez mais com outras questões indispensáveis a um sistema de filosofia liberto, quanto possível, da contingência cultural. Uma filosofia bárbara, talvez uma filosofia portuguesa, marítima e de todos os continentes. Os alemães, pelo contrário, lutam por uma filosofia culta, erradamente. Tão interessante é a Veltanschaug ( visão universal) alemã, como horrível a filosofia. Eles distinguem, e até separam, o que nobre, primitiva e primeiramente está  unido.

(continua...)

 
Entrevista e "Esoterismo na Criação Literária" III
Written by Luís Furtado   

http://www.leonardo.com.pt/revista1/images/leonardo/furtado.jpg


Entrevista a Luís Furtado

III Parte

Miraflores, 15 de Dezembro de 2009


“Leonardo” – Caro Luís Furtado, sendo esta a última conversa motivada pelo seu texto, deixe-me voltar a ele e perguntar-lhe, a finalizar: trinta anos depois de ter escrito aquele texto, e com tudo o que foi entretanto acontecendo, como a morte da Filosofia Moderna, ou a erupção das “espiritualidades”, característica da chamada “New Age”, como actualiza, hoje, as suas teses principais naquele texto?

Luís Furtado - A actualização do meu espírito realiza-se dentro das possibilidades que eu tenho de o receber enquanto convivo com todo o mundo que me rodeia, com todas as solicitações dialécticas que comigo se correspondem na ordem dos meus sentidos e na ordem já lógica do entendimento.

Para lhe responder, é preciso hierarquizar.

 
Duas cartas a Marinho
Written by Álvaro Ribeiro   


INTRODUÇÃO

Publicamos aqui duas cartas, separadas por 17 anos de uma vida intelectual intensa e repleta de vicissitudes, que esta leitura conjunta mais claramente deixa perceber. Fácilmente se reconhecem, José Marinhoentre as duas, diferenças Álvaro Ribeiroe semelhanças que nos permitem idealizar o longo caminho percorrido. Tão longo, tão de cabo a cabo, que se cobrem de ridículo as levianas e maliciosas alegaçoes do espírito crítico pretendendo arrumar Álvaro no canto direito do "ring" do boxe ideológico, com os calções do Estado Novo. Eles é que estão arrumados, melhor, encafuados, no canto oposto. E ficam a esbracejar, festejando vitória em combate sem adversário... Porque Álvaro, esse, ainda praticou a "nobre arte" ao redigir "manifestos" de republicanismo e de democratismo no entusiasmo da juventude; mas depois, os seus superiores mostraram-lhe a outra arte, a arte nobre, o filosofar!
Mas isso, o filosofar, o conceber e seu conceito,  está fora (aceitemos a inevitabilidade do facto...) do alcance do espírito crítico; ao espírito crítico apenas podemos pedir o que lhe cabe na virtude que lhe deu origem: lidar com o preconceito.

À atenção dos que valorizam as pequenas magnas obras da humana simpatia fica também isto: a referência, em ambas as cartas, ao "trabalho extra-liceal", ao "manuscrito" ansiado de Marinho. 

Comove qualquer um pensar como já em 1932, como depois em 49, e até à data da sua publicação - a Teoria do Ser e da Verdade só foi publicada em 1961 !!! -  em suma, durante trinta anos Álvaro exortou ininterruptamente o seu "irmão mais velho" a publicar o seu tão esperado livro. Álvaro, como aqui se vê, não perdia uma oportunidade... E, quem sabe, se sem essa impertinência pertinente, se sem essa insistência persistente, alguma vez teria sido publicada a "Teoria"?

"Quando volta para Lisboa? Traz o manuscrito?".

João Seabra Botelho  
Lisboa, 29 Dezembro de 2009


29 de Novembro de 1932,

Meu caro Marinho
17 de Setembro de 1949

Meu caro Amigo,

Não o venho chamar à ordem de me responder; eu imagino como V. aproveita o tempo durante os períodos lectivos, e faço votos por que o seu trabalho extra-liceal atinja os resultados que Você deseja, que todos os seus amigos desejam.

 

As suas duas cartas, que muito agradeço, vieram encontrar-me terrívelmente doente. Só há dias as pude ler com maior atenção e melhor agrado. Devo, porém confessar que me falecem as forças para responder algumas linhas, como é da praxe.

 
«Não dá!»
Written by Gastão Baptista   

    Lá vem Barrabás, que peluda ao peito,

Toalhinha no ombro e cueca de rosa

Andar saltitante, de trunfa mimosa

Ondulada ao vento, ondula sem jeito.

 

Sorri a Pilatos, de anelito nos dedos

Mãozinhas lavadas, panal de turquesa

Envolto em lilás, de careca tesa…

Avança sem jeito e sorri a medos.

 

    Pede-lhe clemência, piedade, um maná

De amor lacrimoso, fraterno, sentido...

Os joelhos por terra, a mão no ouvido,

Em ânsias, escuta: está bem, mas «Não dá!»

 

Não dá? Que voz da injustiça!

Mas sou Barrabás, o homem porreiro,

Que foi a correr e chegou primeiro.

Mas que mal fiz eu, além de cobiça?

 

    Cuspiste p’ró chão, no trilho do pó,

Fizeste lamaçal onde era poeira,

Tiraste o ovito da linda capoeira,

Ficaste num estado que metia dó.

 

Saíste da mesa, gritaste tão alto

Que fiquei a tremer com medo de ti,

Peludo e barbudo, eu até fugi

Meti-me na concha com o sobressalto.

 

    Calma, idiota, proscrito à tona,

Aguenta-te à bronca, eu sou a justiça!

O mundo está cheio de crentes de missa

E tu és um parvo e «Não funciona!»

 

Buaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Lá se ouve o pranto,

O mendigo está de gatas, e quem o quer? Já está à venda.

Corre encolhido, atrofiado, escondido, vai para a tenda.

Rodopia, gira, geme, grita, deita-se a um canto.

 

pilatos

Lá fora...a multitude agita-se, irracional, inconscientis…

Mas quem lá passa? Será o estranho? O visionário?

O a quem chamam ikTus, iesus, kristus, Teos, u solitário,

Contactus miraculus, cactus espinhaculos, videntis?…

Que vento é este, que aroma imenso..

Que ente nos eleva o ser?

Que importância tem eu não ter
Um tão nobre destino, tão intenso?

Barrabás pifa! Sai de cena. Já chega, afinal…
Fica Pilatos, nervoso, coça-se todo, ai ai.
Agora vem o Filho do Pai,
O que sopra e vai-se o mal…


E repete-se a coisa, anel no dedo,

Olhar sobranceiro, túnica já amarrotada,

Esqueci dizer: Barrabás tinha-lhe enfiado uma chapada...

Lá estava o pateta, a medo.


 
«Não dá!» Não dá? Pacóvio sem razão,

Mandas-me subir ao gólgota? Mas quem és tu?

Com esse ar de levar (enfim, é melhor não dizer esta!)

Não sabes quem é o do peixe e do pão?

 

Mas espera, isto é na Quaresma…

Estamos no Natal, não é?

Já nem sei se estou de pé,

Se passa o tempo e eu na mesma!


Cascais, 27 de Dezembro de 2009 

 
Entrevista e "Esoterismo na Criação Literária" - II
Written by Luís Furtado   

Luís Furtado

 


Entrevista a Luís Furtado

II Parte

Miraflores, 1 de Dezembro de 2009

 


"Leonardo" – Voltando à nossa conversa...

 

Luís Furtado (interrompendo a pergunta) – sim, sim, voltemos à conversa! Procuremos aquelas palavras que fazem faísca e acendem o foco que alumia as paredes da caverna e nos deixa ver as sombras Sim, vendo bem, todos falamos com as paredes, as paredes onde se projectam sombras de nós mesmos, os espelhos do que somos em nossa própria reflexão. E apuramos os sentidos e interrogamo-nos, mil vezes, se todo esse jogo de imagens está certo.

(continua...)

 
Lisboa, 14 de Janeiro de 1936
Written by Álvaro Ribeiro   

http://www.leonardo.com.pt/revista1/images/leonardo/%E1lvaro%20ribeiro.jpg INTRODUÇÃO

A carta que agora publicamos, de um espólio de cartas escritas por Álvaro Ribeiro a José Marinho, não é a mais antiga, mas será aqui a primeira por ter sido escrita apenas doze dias após a morte trágica de Leonardo Coimbra, uma marca indelével no longo percurso de amizade destes dois ilustres filósofos da "Escola Portuense".

Numa entrevista publicada em 1988, na revista "Leonardo" em papel, e que aqui já voltámos a publicar, diz-nos Sant'Ana Dionísio que o fatídico 2 de Janeiro de 1936, data em que terminou a dolorosa agonia de Leonardo, após brutal acidente de viação, deixou os seus discípulos em "estado de choque"!    

Com esta carta confirmamos, em parte, essa afirmação, na medida em que ela deixa perceber a comoção e a dor profundíssima do discípulo grato e leal. Mas fica patente também, sob esse tumulto de sentimentos, o seu inquebrantável e sereno ímpeto para não defraudar a consequência espiritual da morte do Mestre, a que chama, nesta carta, "responsabilidade tremenda".

Tremendo estaria, então, o coração de Álvaro, mas não devido ao "estado de choque". Tremia perante a responsabilidade que, já neste momento o sabia, lhe iria comprometer toda a sua vida futura.

A DIrecção

Lisboa, 14 de Janeiro de 1936

Meu Caro Marinho:

Durante os primeiros dias que se seguiram ao da morte de Leonardo esperei que qualquer dos meus amigos me escrevesse, que alguém me fosse informando do que junto de vós se passava, do que eu muito desejaria saber. Mas ninguém me escreveu; pelo contrário, esperaram todos que eu me manifestasse, não sei de que maneira.

(continua...)

 

 
Entrevista e "O Esoterismo na Criação Literária"
Written by Luís Furtado   

INTRODUÇÃO

Nascido em Valpaços em 1938, Luís Manuel Abreu de Furtado Guerra vem viver para Lisboa com vinte anos; e é em 1959  que entra no Café Colonial, onde encontra Álvaro Ribeiro. Feitas as apresentações, verificada a feliz coincidência de serem quase vizinhos, Luís Furtado e Álvaro Ribeiro mantiverem desde essa data convivio filosófico ininterrupto, até à morte deste último.

São já bastantes as referências publicas e impressas à Tertúlia de Alvaro e Marinho. Se compararmos um número significativo destas referências, verificaremos que nem sempre elas coincidem nas personalidades que referem. Mas poder-se-ão determinar, basicamente, dois conjuntos: os que são sempre, ou quase sempre, indicados como sendo participantes da tertúlia e discípulos dos referidos mestres, como é o caso de Orlando Vitorino, António Telmo, Pinharanda Gomes, e o conjunto dos que, umas vezes são, outras não são, como é o caso de um António Quadros, de um Afonso Botelho, de um Francisco Sottomayor ou mesmo de um Braz Teixeira, sendo que este último, ao contrário dos outros, rarissimamente terá comparecido na tertúlia própriamente dita a partir de meados dos anos sesenta. Ora Luis Furtado, tendo sido dos mais constantes e presentes, e logo desde um longínquo ano de 1959, consegue certamente ser aquele que menos vezes é nomeado. Porquê?

Terá isto a ver com o facto de todos estes participantes na tertúlia, tanto os do primeiro conjunto como os do segundo, terem ganho notoriedade pública e relevância cultural devido à obra escrita que produziram, enquanto que Luís Furtado mais não deu à tipografia que alguns artigos, prefácios e conferências ? Dito de outro modo: deve-se este manto de denso e persistente silêncio que cobre o nome de Luís Furtado à ausência, neste, de um ostensivo perfil de Escritor? Mas, se fosse esse o caso, como explicar as referências a Francisco Sottomayor, que menos ainda publicou?

Luis Furtado, que é pouco lembrado, sempre que a conversa incide sobre os primórdios da sua presença no "Colonial", lembra com saudade um outro esquecido, Luís Zuzarte. Furtado qualifica-o como personalidade de genial jovialidade que, não fora a morte prematura, teria sido o mais extraordinário discípulo da mestria Alvarina. Mas lembra-nos também outras presenças, umas mais fugazes que outras, como a de Amorim de Carvalho, Jorge Filgueiras, Avelino Abrantes, Luís Espírito Santo, e ainda alguns outros, já nascidos na segunda metade do século, que aqui nos escusamos de mencionar. 

A propósito da publicação do seu inédito "O Esoterismo na Criação Literária", e dado que este texto, com cerca de trinta anos de "gaveta", nos deixa espaço para muita curiosidade sobre o seu pensamento actual, decidimos anteceder e acompanhar a publicação do texto com uma entrevista a Luís Furtado, perspectiva aliciante sabendo nós que os seus dotes oratórios lhe permitiriam responder de imediato a qualquer questão, por mais intrincada que fosse...

 Dada a extensão do texto, fomos forçados a dividi-lo em três partes. Aproveitámos, assim, para conversar com Furtado em três sessões distintas, cabendo a cada uma servir de intróito à respectiva parte do texto. Tudo o que publicarmos como "entrevista" é a textual gravação das conversas, apenas com aquelas ligeiras alterações que um estilo totalmente coloquial, por vezes, requer, na transcrição para um texto escrito. 

A Direcção
       

 
Até ao fim de 2009
Written by Direcção   

Na Leonardo, não deve o ano de 2009 ao ostracismo a que alguns nos votaram, e que não estranhamos nem nos penaliza por aí além, o merecido epíteto de aziago. Pelo contrário, do ostracismo, que forçosamente remete o ostracizado a modesta e pacata rotina quotidiana, normalmente se obtém a tranquilidade de quem não desperta nem criticas nem invejas.

Mas neste aziago ano de 2009 fomos, para nossa surpresa e incómodo, vítimas de constante assédio e vandalismo informático, o que foi suficiente para perturbar, desalentar e irritar, com assaz frequência, os ineptos e distraídos "informáticos" que mantêm esta revista em fazenda. E, cremos, terá também sido suficiente tal assédio para incomodar quem vem ler a Leonardo e se depara com os erros, as ausências, as alterações para pior, de que pedimos reiteradamente desculpa...

Mas até ao fim de 2009, estamos na disposição de virar o bico ao prego! Dificilmente haverá, para dar resistência e resiliência perante as adversidades, melhor exercício que o filosofar em Português. Assim fortalecidos, aqui anunciamos e nos comprometemos a concretizar três inicativas editoriais que justificam o que, no mínimo, somos: únicos.

Ora, quem, senão a Leonardo, poderia:

- Apresentar o filósofo brasileiro mais importante do século XX, que em escandaloso silenciamento permanece afastado e esquecido, apesar de sua obra colossal? Claro, o leitor destas linhas deita-se a adivinhar - "quem será?", e talvez não chegue lá, porque no Brasil, tal como aqui, o nacional-bacharelismo é brutalmente eficaz nas suas condenações ao silêncio!!! E, não, não está mencionado este filósofo num livro recentemente apresentado por um autor credenciado, António Braz Teixeira, que apreciamos no que diz, mas lamentamos no que omite - afinal, um estudo aprofundado do pensamento brasileiro, como aquele que recentemente publicou, assente em anos de convívo e intercâmbio cultural com o Brasil e apresentado em pompa académica que nos parece garantir o cumprimento da habitual exigência "científica" de exaustiva erudição, pode considerar-se probo e representativo, quando omite o nome de Mário Ferreira dos Santos? De mão amiga, a de Leandro Mello Ferreira (a quem não podemos agradecer convenientemente...),  recebemos há meses atrás volumosa encomenda, quase uma dúzia de obras de Mário Ferreira dos Santos. Prometemos, até ao final do ano, fazer uma primeira apresentação possível desse filósofo que, repetimos, é vergonhosamente silenciado pelos exércitos da lusófona "República das Letras" e suas academias.

- Entrevistar e publicar inéditos do filósofo Luís Furtado. Arredado também do aparato editorial e académico, Luis Furtado é, dos três últimos sobreviventes do "Movimento da Filosofia Portuguesa" nascidos na primeira metade do século passado, o único que não é figura notória, já que os outros dois, prolixos escritores, dão pelos nomes de António Telmo e Pinharanda Gomes. Para quem tenha conhecido de perto a já célebre tertúlia filosófica reunida em torno de Marinho e Álvaro Ribeiro, e outras daí emanadas, o nome de Luís Furtado dispensa apresentações. Para os restantes será, provavelmente, ilustre desconhecido. Para todos, e que se dêem ao trabalho de ler os textos que aqui iremos publicar, será surpresa - todo o pensamento livre e autónomo, em suma, todo o filosofar, é sempre surpreendente!

- Publicar cartas de Álvaro Ribeiro a José Marinho, cartas que nos sublinham e dão maior nitidez ao vínculo de saudade por um tempo translúcido, que ilumina a memória, tempo criado por dois nobres seres humanos cuja amizade nos honra a todos.

Entretanto, e como é de esperar, continuaremos também a publicar o que nos vai chegando e o que vamos escrevendo, e assim se passará o resto de 2009, ano aziago. 

Pela Direcção
João Seabra Botelho     

 
A Universidade falou!
Written by Miguel Bruno Duarte   

 

         «Continua a haver um clima tenso entre as correntes do pensamento português e aqueles que se intitulam de seus legítimos representantes. Os que estão fora das universidades reúnem-se por afinidades em torno de pequenos grupos pensando, em muitos casos, que são os únicos herdeiros da tradição portuguesa e por isso abrem várias guerras àqueles que por não pensarem como eles, no seu entendimento, não têm legitimidade de falar em nome da tradição especulativa portuguesa. Todos estes grupos continuam a resistir ao trabalho realizado nas academias, denegrindo-o com frequência, apesar do valor que mostrar possuir. Parece que se acham portadores de uma verdade absoluta e por isso excluem todos aqueles que não concordarem com os seus princípios de análise e crítica».

Artur Manso

 novaaguia.blogspot.com

 

Eis nova amostra de como os representantes bem-falantes, quando não mesmo os herdeiros da instituição mais poderosa de Portugal, continuam a meter o pé na argola, quanto mais não seja pelo ressentimento direccionado contra o que jamais poderão vir a compreender, e muito menos a sujeitar na forma de um «corpete», como, em contexto outro, embora não menos preconceituoso, estranha e femininamente fantasiou e escreveu um epígono do «grupo» de Estremoz, entretanto convertido, para surpresa dos incrédulos e proveito da máquina universitária, na novel e extravagante Cátedra de Estremoz. Referimo-nos, como é óbvio, à existência da filosofia portuguesa, que não passa por ser, como de mansinho se alega, uma questão grupal, mas antes e, sobretudo, uma questão de pensamento cujo fim não somente consiste, quando necessário e imperativo se torna, denunciar o psitacismo e a ignorância da cultura oficial universitária de que o representante acima referido faz parte e protagoniza no mais baboso e emburrado sentido carreirista, como ainda e, principalmente, projectar e perpetuar uma tradição especulativa que não deve nem nunca deveu a sua existência ao por demais parasitário e mumificado «trabalho realizado nas academias».

De resto, já Orlando Vitorino, que conhecia e não perdoava a sanha ardilosa, ressentida e odienta do pombalismo a um tempo universitário e inquisitorial, escrevera o que hoje permanece válido como nunca, a saber: «A “filosofia portuguesa” (…) não é a filosofia de um grupo, de um “movimento”, de uma “escola”; é a consciência da Pátria e encontra-se difusa em todos os Portugueses que pensam». O que, por si só, permite responder de uma vez por todas à distorção mental que afecta, desorienta e corrompe aquele «parasitário saber erudito e monografista que é próprio dos doutores», até porque, esse sim, é que se acha e julga, em sua falsa e aparente modéstia, «portador de uma verdade absoluta» por via de toda aquela carga ideológica e pseudo-científica de que a Universidade, em seu dogmatismo incurável e irremediável, se faz puro e sôfrego eco.

Por outras palavras, a Universidade que temos, por mais que esperneie e queira fugir à evidência de que é, no mínimo, um cadáver adiado por procriar, não enxerga o facto de a cultura portuguesa jamais poder ser concebida numa espécie de coordenada cartesiana, como quando se diz, na obra alquímica e plúmbea de Miguel Real, que de um lado estão, estreita e simplisticamente, os racionalistas e modernistas, enquanto do outro, como não podia deixar de ser, pairam os providencialistas e nacionalistas. Está, portanto, lançado o ardil que, uma vez aceite pela maioria bem-pensante das academias e da cultura de cordel para consumo da populaça perdida em movimentos suposta e alegadamente cívicos, vai doravante justificar, numa alegada terceira via, o mais cabal e exultante manifesto anunciador de uma nova era de paz simultaneamente prometeica e paradisíaca. E tudo isso não sem antes se alertar para o perigo plasmado no carácter conservador e retrógrado atribuído à filosofia portuguesa, posto que, por efeito e influência eduardina de uma das mais patéticas e monstruosas falsidades maliciosamente forjadas, àquela coube, como se aventa ou sugere, encerrar a «história a sete chaves no porão de um navio negreiro, atirando» não só «as chaves ao mar profundo», mas forçando ainda «os vindouros a abrirem-no através de sucessivas explosões sociais, entre elas a do «25 de Abril de 1974», ou da «perda desonrosa do Império» (M. Real, Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa, Quidnovi, 2007, p. 81).

Perante isto, poder-se-á, pois, dizer simplesmente tratar-se de uma aleivosia irrelevante, qual produto de um enganado enganoso? Ou de que se trata de uma opinião, quiça, meramente inconsequente e nada pautada pelo propósito de denegrir quem sempre, por vezes no mais agónico e cruxificante sacrifício, entregou o corpo, a alma e o espírito ao estudo inquieto e incansável da fisionomia espiritual da Pátria Portuguesa? Não, quanto a nós não é concebível que se escrevam estas barbaridades sem que possamos, naquele que talvez seja o derradeiro acto da nossa existência enquanto povo traído por aqueles que hoje se pavoneiam e arvoram em senhores da nossa consciência, reagir com veemente e profunda indignação perante o que se nos afigura continuar a ser um simulacro simiesco da verdadeira cultura nacional-humana.

Na verdade, não excluímos nada nem ninguém, mas também não nos entregamos nem colaboramos com a hipocrisia institucionalizada das academias, dos institutos e das universidades ao serviço culturalmente agenciado e invasor do socialismo dominante. Aliás, nada se fará ou poderá fazer enquanto predominar um sistema universitário que não procure libertar-se do cadáver em que manifestamente apodrece para dar lugar à Nova Universidade que é e deve ser, antes de mais, a legítima e transcendente expressão do universal concreto contido e espelhado na alma ora individual ora colectiva do povo português. Por conseguinte, até lá, caso de dê essa possibilidade, fiquemos com a máxima de Séneca, a qual poderia, eventualmente, figurar no átrio ou na fachada informe e pétrea da Universidade marxista que temos, a saber: «quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça».

 

Miguel Bruno Duarte

 
Assim falava... Ortega y Gasset
Written by João Seabra Botelho   

Ortega y Gasset

Excertos de "Espanha Invertebrada"

Selecção, tradução e Introdução

João Seabra Botelho

Um texto de Ortega y Gasset dificilmente nos deixa indiferentes, já que a sua pena é incisiva na análise, fogosa na argumentação e perspicaz na anunciação. Escrito pelos anos vinte do século passado, e reimpresso em livro já na década que vê deflagrar a Guerra Civil de Espanha, "Espanha Invertebrada" é um texto em que Ortega faz um exercício hermenêutico sobre as causas e os efeitos de um exasperante movimento de decadência que, até em Portugal, se usou chamar de "Decadência Peninsular". No entanto, ao contrário da vulgar postura autoral portuguesa dos que, aqui, e durante quase dois séculos, a tal exercício se dedicaram, Ortega não é um "estrangeirado". Nem avalia a decadência de Espanha em relação a outra coisa que não a si própria, nem teoriza a menoridade cultural de Espanha em relação a outros países da Europa nem propõe a simples importação do saber dessas culturas para levantar os padrões culturais ou morais da sociedade Espanhola. Nisso, terá sido muito Espanhol, nada Português. Espanha tem demasiado território, população e ambições para que um intelectual Espanhol minimamente sério se possa comprazer ou bastar com a estratégia de assumir, lamentar ou culpar o "coitadinho" País, estratégia que tanto geito dá aos nossos "estrangeirados" Portugueses, os frustados e os desiludidos, que assim fazem a catárase dos seus ressentimentos..
Ora a "Filosofia Portuguesa" assumiu-se como escol de Portugueses esperançados, e por isso não deu, dá, ou dará vivas e louvores aos proficientes cortes de cirurgia plástica dos "estrangeirados" na Cultura Portuguesa, seja os que se destinam a embelezá-la para o bailarico dos Nobel, seja para os enterros das Mortes anunciadas.

 
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